Uma publicação da Editora Brasil Energia

Xeque-mate no mercado de energia solar mundial

O que o Brasil deve aprender com a China sobre política industrial, precificação de riscos e estruturas organizacionais.

*Com Mariana Weiss

No mundo, a energia solar (fotovoltaica, heliotérmica e aquecimento de água) já representa 486 GW e espera-se ultrapassar os 8 TW até 2050, crescendo quase 9% a cada ano, o equivalente a mais de 600 hidrelétricas com o porte de Itaipu. O continente asiático representa mais de 50% desse mercado, liderado pela China, e continuará dominando a energia solar (tabela 1).

Tabela 1 – Capacidade Instalada Mundial Solar em MW

REGIÕES 2004 2008 2012 2016 2018 PARTICIPAÇÃO
MUNDIAL (%)
MUNDO 3.440 15.248 104.144 295.828 486.085 100%
ÁSIA 1.236 2.849 15.996 136.382 274.894 56,6%
EUROPA 1.337 10.522 73.868 107.102 126.854 26,1%
AMÉRICA DO NORTE 781 1.670 9.439 37.766 57.158 11,8%
OCEANIA 49 93 3.829 6.857 10.604 2,2%
ÁFRICA 22 65 412 3.393 6.097 1,3%
AMÉRICA DO SUL 6 12 157 1.545 5.471 1,1%
ORIENTE MÉDIO 0 10 275 1.636 3.281 0,7%

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de IRENA, 2019.

 

Apesar do alto potencial de geração no Brasil, a energia solar por aqui (apenas fotovoltaica) conta com pouco mais de 4 GW instalados[1]. Entre os países em desenvolvimento, o Brasil fica na frente apenas dos russos (tabela 2).

Tabela 2 – Ranking Top 6 de países em desenvolvimento segundo capacidade instalada solar em MW

PAÍSES 2004 2008 2012 2016 2018
CHINA 77 259 6.948 79.047 177.647
ÍNDIA 8 28 982 9.879 27.115
ÁFRICA DO SUL 0 0 11 2.174 2.959
MÉXICO 16 19 60 389 2.555
BRASIL 0 0 2 80 2.296
RÚSSIA 0 0 0 77 584

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de IRENA, 2019.

 

Por outro lado, no que diz respeito ao aumento da capacidade instalada entre os anos de 2018 e 2017, o Brasil foi o 11º país que mais realizou investimentos em energia solar (gráfico 1), adicionando 1,1 GW na matriz energética e taxa de crescimento significativa acima de 100% ao ano.

Gráfico 1 – Ranking Top 11 maiores investimentos mundiais em energia solar entre os anos de 2018 e 2017 em MW

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados de IRENA, 2019.

 

Atualmente, o futuro da energia solar na matriz energética brasileira é um dos dilemas mais latentes no setor elétrico. Há intensa discussão sobre as políticas de incentivo da micro e mini geração distribuída (MMGD) pelo mecanismo de netmetering, a novidade da introdução da fonte solar nos leilões de energia nova A-6, a queda acentuada do seu preço no mercado, a modernização do setor elétrico frente à intermitência das fontes renováveis, os investimentos em P&D&I para gerar competitividade no armazenamento, os desafios de incorporar os sinais locacionais dessas fontes renováveis na tarifa e a transição energética na indústria de óleo e gás com mais investimentos em energia limpa.

Todos esses tópicos já estão sendo amplamente debatidos e aos poucos resolvidos, mas há questões relevantes que ainda permanecem à sombra do debate no Brasil e em boa parte do mundo, e que são cruciais na maximização dos reais benefícios da energia solar: a política industrial, a precificação dos riscos e as estruturas organizacionais desse mercado.

O Brasil conta com 146 fábricas de partes e componentes para energia solar fotovoltaica, das quais 52% possuem cadastro no programa FINAME[2] do BNDES. A tabela 3 detalha a participação da cadeia produtiva por Estado e no total brasileiro. É interessante notar que, apesar do maior potencial de geração solar estar localizado na região Nordeste, apenas 8 das 146 fábricas encontram-se nesta região, as demais estão divididas entre o Sudeste e o Sul, destaque para os estados de São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais.

Tabela 3 – Número de Empresas ligadas à Indústria Fotovoltaica no Brasil

CADEIA
PRODUTIVA
SP SC MG PR RS RJ ES PE TO AL BA PA RN BRASIL
Sistema – Kit Fotovoltaico 10 6 6 2 4 1 1 30
Estrutura de Suporte 15 2 2 4 1 1 2 1 1 29
Cabos e Conectores 19 1 2 1 1 1 1 1 27
Inversor 11 4 15
Materiais Elétricos 6 1 1 1 1 10
Seguidor 5 3 1 1 10
Módulo Fotovoltaico 4 4 1 9
Estação Eletrocentro 3 2 1 2 8
String Box 1 1 1 1 4
Bateria 1 1 2
Sistemas de Controle 1 1
Sistemas de Para-Raios 1 1
TOTAL 77 17 15 11 8 7 3 2 2 1 1 1 1 146

Fonte: Cenários Solar Brasil Energia, 2019.

 

No país, a maioria das empresas instaladas ainda estão ligadas à oferta de kits fotovoltaicos ou à produção de estruturas de suporte, cabos e conectores. Apenas nove destas empresas apresentam como atividade principal a fabricação dos módulos, componente responsável por gerar o maior valor agregado da cadeia produtiva. Apesar dessas indústrias também estarem cadastradas no BNDES, todos os fabricantes de módulos são representantes de empresas estrangeiras.

Ainda que crescente o número de fabricantes, a produção nacional está vinculada ao financiamento do BNDES, que possui a exigência de conteúdo local. Quando beneficiadas por esse recurso, as fábricas caracterizam-se como integradoras dos equipamentos chineses, necessários ao comissionamento das usinas. Quando não, as empresas importam os módulos e outros componentes de alto valor agregado (como os inversores) diretamente da China.

Para isso, algumas dessas indústrias fazem parte de conglomerados de unidades fabris com capacidade mais flexível e sazonal, constituídos por um modelo de produção verticalizado, de forma que há uma integração entre diferentes unidades, consolidando uma cadeia produtiva complementar e virtuosa. Pode-se citar, como exemplo, o modelo do sudeste asiático chamado Flex[3], localizado em Sorocaba/SP e integra importantes players.

Os módulos chineses ainda são significativamente mais baratos do que os brasileiros (tabela 4), principalmente devido à diferença nas escalas dos mercados solares na China e no Brasil (tabela 2 e gráfico 1). Logo, há preferência pelos chineses, dado que qualquer redução no CAPEX de um projeto fotovoltaico pode se tornar decisiva no resultado dos leilões e no fechamento de novos contratos no mercado livre.

 

Tabela 4 – Custos para Instalação Fotovoltaica de 75 kWp

EQUIPAMENTOS MÓDULO IMPORTADO
(R$/Wp)
MÓDULO NACIONAL (R$/Wp)

DIFERENÇA (R$/Wp)

DIFERENÇA
(%)
Módulo Fotovoltaico 1,53 2,46 0,93 60,6%
Demais componentes 3,31 3,31 Não se aplica Não se aplica
Custo total sistema FV 4,84 5,77 0,93 19,2%

Fonte: Elaborado pela FGV com base em SEBRAE, 2018.

 

Mesmo com a política industrial, estima-se que os painéis produzidos no Brasil sejam até R$ 1,00 mais caros do que os produzidos na China. Porém, acredita-se que uma política de conteúdo local mais integrada e focada seja capaz de gerar competitividade para a indústria nacional no médio e longo prazo, além de mais benefícios para a economia brasileira.

A existência da regra de conteúdo local para o acesso à linha de financiamento, com taxas de juros mais baixas, justifica-se pelo seu potencial de incentivo ao desenvolvimento da indústria de transformação, gerando empregos, capacitação e renda, além de movimentar outros setores. Na figura 1, estão listados os setores que podem ser beneficiados com esse investimento: vidreiro, metal mecânico, siderúrgico, mineração, petroquímico e outros.

Figura 1 – Materiais utilizados na produção industrial de 1 MW solar fotovoltaico

Fonte: IRENA, 2019.

Com relação à demanda de mão-de-obra no setor fotovoltaico, a demanda mundial concentra-se em: instalação e O&M (56%), Fabricação (22%), Vendas e Distribuição (17%) e outros (5%).

Segundo a IRENA (2019), a China conta com quase 3 milhões de empregos no setor fotovoltaico (85% do total global). Esse fato leva à reflexão sobre a eficácia da política industrial brasileira sobre o estímulo à capacitação e geração de empregos.

Nos gráficos 2 e 3, observa-se a evolução do mercado fotovoltaico mundial e os investimentos chineses, que por meio da sua política industrial e estratégia organizacional passaram a dominar esse setor. Logo, o aumento da capacidade instalada e a posição estratégica como produtora de partes e componentes globais tornam a China líder na geração de empregos tanto nas fábricas, quanto na instalação e O&M das usinas fotovoltaicas.

Gráfico 2 – Participação Mundial na Produção Industrial de Módulos Fotovoltaicos em MWp

Fonte: Fraunhofer Institute for Solar Energy Systems, 2019.

Gráfico 3 – Distribuição Mundial da Produção Industrial de Módulos Fotovoltaicos em GWp

Fonte: Fraunhofer Institute for Solar Energy Systems, 2019.

 

Ilustra-se o comportamento dos países por meio da teoria dos jogos. Considerando por equilíbrio de mercado[4], a posição internacional que os países não têm incentivos a mudar sua estratégia unilateralmente, é possível que a busca individual da melhor solução conduza o mercado para um resultado em que se verifique estabilidade, não havendo incentivo para que nenhum dos países altere o seu comportamento mesmo sendo concorrentes.

Ao longo dos anos, muitos países transferiram suas fábricas para a China, por diferentes fatores. Assim, o governo chinês assumiu a liderança nesse mercado e é capaz de criar barreiras à entrada de concorrentes no segmento.  Dentre as estratégias bem-sucedidas, a economista Mariana Mazzucato da UCL (University College London) aponta a do “Estado empreendedor”, criando fundos para desenvolvimento da indústria fotovoltaica financiados pelo governo. Para efeitos de comparação, em 2018 a China investiu US$ 91,2 bilhões em renováveis, ao passo que o Brasil apenas US$ 3 bilhões[5].

Pelo lado da oferta de módulos e componentes fotovoltaicos, a China detém mais de 50% desse mercado e posiciona-se cada vez mais como líder oligopolista do setor e, pelo lado da demanda de recursos naturais para produção industrial (silício, cobre, minério de ferro), como uma das maiores nações importadoras, tendo poder de mercado e sendo capaz de influenciar os preços sistematicamente.

Esses fatores revelam que nos últimos anos, o Brasil e o resto do mundo estão mais dependentes das variabilidades e expectativas da economia chinesa, aumentando o risco dos empreendimentos. No último leilão A-4 de 2019, foram contratados 21,1 MW de energia fotovoltaica com preço médio de R$67,48 por MWh. Nunca a fonte solar apresentou preço de venda tão baixo nos leilões do ambiente regulado no território brasileiro.

Ainda que a curva de aprendizado tecnológico venha contribuindo ao longo dos anos para redução do preço da energia solar fotovoltaica, a redução do CAPEX dos projetos pode ser afetada pelas futuras variações na economia chinesa. Mesmo que os módulos sejam montados em território brasileiro, os projetos nacionais devem apresentar razoabilidade econômica, reforçando a importância da precificação dos riscos e análise dos instrumentos de hedge para proteger os empreendimentos de possíveis volatilidades internacionais.

Outro questionamento recorrente é sobre se a indústria solar fotovoltaica brasileira poderia estar gerando mais empregos no Brasil, como ocorre no mercado de energia eólica. Além do elevado nível de concorrência chinesa no mercado de painéis solares fotovoltaicos, a facilidade logística e exportadora dos equipamentos dificulta a sua nacionalização.

Embora a China tenha a liderança desse setor, a IRENA (2019) espera que a indústria solar global possa gerar mais de 18 milhões de novos empregos até 2050, número quatro vezes maior que os seus atuais 4,4 milhões de trabalhadores. No entanto, a questão está em como elevar a participação dos países na geração de empregos, principalmente se dispuserem de matérias-primas, produção industrial, posição logística estratégica, grande mercado consumidor interno e capacidade de expansão da energia solar na matriz energética. E o Brasil conta com todos esses pré-requisitos.

Para os próximos anos, o desafio da indústria solar brasileira é maximizar ainda mais esses benefícios econômicos, por meio do apoio governamental com programas de desenvolvimento tecnológico (fotovoltaico, heliotérmico, armazenamento e mobilidade elétrica) de forma similar aos chineses, focados na competitividade da indústria. Para isso, será importante verificar as possibilidades de parcerias estratégicas com outros países e identificar os diferenciais da indústria brasileira na produção de partes e componentes, permitindo espaço para um novo xeque-mate no setor solar mundial.

[1] Dados até março de 2020.

[2] Programa de financiamento da produção e aquisição de máquinas e equipamentos nacionais credenciados no BNDES.

[3] https://flex.com

[4] Suponha que há um jogo com n participantes. No decorrer deste jogo, cada um dos n participantes seleciona sua melhor estratégia, ou seja, aquela que lhe traz o maior benefício. Se cada jogador chegar à conclusão que ele não tem como melhorar sua estratégia, dadas às escolhas dos seus adversários – que não podem ser alteradas, as estratégias adotadas pelos participantes deste jogo definem um ponto de equilíbrio, conhecido como “equilíbrio de Nash”.

[5] REN21 – Renewables 2019 Global Status Report. https://www.ren21.net/wp-content/uploads/2019/05/gsr_2019_full_report_en.pdf

 

*Mariana Weiss é consultora do Banco Mundial em acesso à energia no âmbito de desenvolvimento sustentável e pesquisadora associada da FGV Energia. Doutoranda do Programa de Planejamento Energético (PPE/COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Planejamento Energético também pela COPPE/UFRJ e graduada em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Possui atuação nos temas: padrões de consumo de energia, demand response, smart grids, eficiência energética, fontes de energia renováveis e geração distribuída. Possui experiência com gestão de projetos e desenvolvimento de estudos de planejamento energético integrado com foco em políticas públicas, utilizando matrizes insumo-produto e modelos bottom-up e topdown, bem como inventários de gases de efeito estufa e projetos de Inovação e P&D.

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